domingo, 10 de julho de 2011

JEAN PIAGET: TEORIA BÁSICA

JEAN PIAGET: TEORIA BÁSICA

Vera Lúcia Pereira de Souza[1]

Desde pequeno Jean Piaget evidenciou sua capacidade de observação. Quando tinha onze anos percebeu um melro albino em uma praça da cidade onde morava. Por meio da observação deste pássaro gerou seu primeiro trabalho científico. Formado em Biologia preocupou-se por estudar sobre o desenvolvimento do conhecimento nos seres humanos. As teorias de Jean Piaget, deste modo, tentam nos explanar como se desenvolve a inteligência nos seres humanos. Daí a denominação dado a sua ciência de Epistemologia Genética, que é apreendida como a disciplina dos mecanismos do aumento dos conhecimentos. (LIMA, 1980)
Convém explicar que as teorias de Piaget apresentam constatação em fundamentos científicos. Ou seja, ele não apenas narrou o processo de desenvolvimento da inteligência, mas, experimentalmente, provou suas teses.
Sintetizar a teoria de Jean Piaget não é um trabalho simples, pois sua obra tem mais páginas que a Enciclopédia Britânica. Desde que se preocupou por divulgar o desenvolvimento da inteligência humana, Piaget trabalhou compulsivamente em seu desígnio, até as vésperas de sua morte, em 1980, aos oitenta e quatro anos, deixando documentado perto setenta livros e mais de quatrocentos artigos. Recordamos aqui alguns conceitos fundamentais de sua teoria, com a cooperação do “Glossário de Termos”. (LIMA, 1980)
1 - A inteligência para Piaget é o organismo de acomodação do organismo a uma circunstância nova e, como tal, da a entender a construção sucessiva de novos organismos. Esta adequação refere-se ao mundo externo, como toda adequação biológica. Desta forma, os sujeitos se desenvolvem intelectualmente a partir de exercícios e estímulos apresentados pelo ambiente que os circulam. O que vale ainda narrar que a inteligência humana pode ser praticada, procurando um aprimoramento de potencialidades, que evoluciona desde o nível mais inicial da vivência, assinalado por trocas bioquímicas até o grau das trocas simbólicas. (RAMOZZI-CHIAROTTINO apud CHIABAI, 1990).
2 - Segundo Piaget a conduta dos seres vivos não é congênita, nem conseqüência de condicionamentos. Para ele a conduta é estabelecida numa influência mútua entre o ambiente e o sujeito. Esta teoria epistemológica (epistemo = conhecimento; e logia = estudo) é distinguida como interacionista. A inteligência do sujeito, como adequação a circunstâncias novas, logo, está pautada com a complexidade desta interação do sujeito com o ambiente. Em outros vocábulos, quanto mais complicada for este intercâmbio, mais inteligente será o sujeito. As teorias piagetianas acendem campo de estudo não exclusivamente para a psicologia do desenvolvimento, no entanto igualmente para a sociologia e para a antropologia, além de admitir que os pedagogos delineiem um procedimento fundamentado em suas descobertas.
3 - “Não existe estrutura sem gênese, nem gênese sem estrutura” (PIAGET, 1982). Ou seja, a estrutura de amadurecimento do sujeito sofre um processo genético e a constituição esta sujeito a uma estrutura de amadurecimento. Sua teoria nos apresenta que o sujeito só ganha um determinado conhecimento se ficar preparado para recebê-lo. Ou seja, se puder atuar sobre o elemento de conhecimento para colocá-lo num sistema de relações. Não há um novo conhecimento sem que a constituição tenha já um conhecimento antecedente para poder assimilá-lo e transformá-lo. O que da a entender os dois pólos da atividade inteligente: assimilação e acomodação. É assimilação na medida em que agrupa a seus quadros todo o elemento do conhecimento ou estruturação por agrupamento do fato externo a formas devidas à atividade do indivíduo.  (PIAGET, 1982).
É acomodação na medida em que a estrutura se transforma em função do ambiente, de suas modificações. A adaptação mental compõe-se então em uma estabilização progressiva entre uma estrutura assimiladora e uma acomodação complementar. (PIAGET, 1982).
Piaget estabelece, segundo Dolle, o problema epistemológico, o do conhecimento, ao grau de um intercâmbio entre o sujeito e o elemento.
(...) essa dialética resolve todos os conflitos nascidos das teorias, associacionistas, empiristas, genéticas sem estrutura, estruturalistas sem gênese, etc.... e permite seguir fases sucessivas da construção progressiva do conhecimento (1974, p. 52).

4 - O desenvolvimento do sujeito começa no momento intra-uterino e vai até aos 15 ou 16 anos. Piaget expõe que a embriologia humana evolui ao mesmo tempo após o nascimento, designando mecanismos cada vez mais complexos. A constituição da inteligência dá-se, deste modo em fases consecutivas, com complicações crescentes, encadeadas umas às outras. A isto Piaget titulou de “construtivismo seqüencial”. (LIMA, 1980).
A seguir os momentos em que se dá este desenvolvimento motor, verbal e mental.
a. Período Sensório-Motor - do nascimento aos dois anos, aproximadamente.
A falta da função semiótica é a central propriedade deste momento. A inteligência trabalha por meio das percepções (simbólico) e das atuações (motor) por meio dos deslocamentos do próprio corpo. É uma inteligência eminentemente prática. Sua linguagem vai da ecolalia (imitação de sílabas) à palavra-frase ("água" para falar que quer tomar água) já que não imagina mentalmente o elemento e as atuações. Seu comportamento social, neste momento, é de isolamento e indiferenciação (o mundo é ele). (LIMA, 1980).
b. Período Simbólico - dos dois anos aos quatro anos, aproximadamente.
Neste momento passa a existir a função semiótica que permite o aparecimento da linguagem, do desenho, da repetição, da dramatização, e assim por diante. Podendo inventar representações mentais na falta do objeto ou da ação é o momento da fábula, do faz de conta, do jogo simbólico. Com a competência de formar imagens mentais pode modificar o objeto num contentamento de seu prazer (uma caixa de fósforos em veículo, por exemplo). É também o momento em que o sujeito “dá alma” (animismo) aos objetos ("a bicicleta do papai foi 'dormir' na garagem"). A linguagem está no nível de monólogo grupal, ou seja, todos discorrem ao mesmo momento sem que respondam as argumentações dos outros. Duas crianças “falando” narram citações que não têm semelhança com a frase que o outro está falando. Sua socialização é vivida de forma isolada, mas dentro do coletivo. Não há comando e os semelhantes são constantemente trocados.
Têm outras características do pensamento simbólico que não estão sendo referidas aqui, uma vez que a proposta é de resumir os conceitos de Jean Piaget, como por exemplo, o nominalismo (dar nomes às coisas das quais não sabe o nome ainda), superdeterminação (“oposição”), individualismo (tudo é “meu”), assim por diante. (PIAGET, 1982).
c. Período Intuitivo - dos quatro anos aos sete anos, aproximadamente.
Neste momento já há um anseio de esclarecimento dos acontecimentos. É a “fase dos porquês”, pois o sujeito indaga o período todo. Distingue a fábula do verdadeiro, podendo dramatizar a fantasia sem que creia nela. Seu pensamento permanece situado no seu próprio ponto de vista. Já é apto de organizar quantidades e conjuntos sem, no entanto compreender conjuntos menores em conjuntos maiores (margaridas no grupo de flores, por exemplo). Quanto à linguagem não sustenta um diálogo longa, mas já é hábil de adequar sua resposta às palavras do companheiro.
Os Momentos Simbólicos e Intuitivos são também habitualmente apresentados como Período Pré-Operatório. (PIAGET, 1982).
d. Período Operatório Concreto - dos sete anos aos onze anos, aproximadamente.
É o momento em que o sujeito materializa as permanências de número, conteúdo, volume e peso. Já é apto de classificar elementos por sua dimensão (grandeza), abrangendo conjuntos, organizando então o mundo de forma coerente ou operatória. Sua organização social é a de grupo, podendo compartilhar de grupos maiores, comandando e aceitando a chefia. Já podem compreender normas, sendo leais a ela, e instituir compromissos. O diálogo torna-se possível (já é uma palavreado socializado), sem que, no entanto possam debater diversos pontos de vista para que cheguem a uma conclusão comum. (PIAGET, 1982).
e. Período Operatório Abstrato - dos onze anos em diante.
É o auge do desenvolvimento da inteligência e obedece ao nível de pensamento hipotético-dedutivo ou lógico-matemático. É quando o sujeito está capaz para calcular uma possibilidade, libertando-se do palpável em conveniência de interesses guiados para o futuro. É, enfim, a “abertura para todos os prováveis”. A partir desta composição de pensamento é plausível a lógica, que admite que o palavreado se apresente no nível de discussão para se chegar a uma conclusão. Sua organização coletiva pode constituir relações de colaboração e reciprocidade. (LIMA, 1980).
5 - A importância de se definir os momentos de desenvolvimento da inteligência reside na ocorrência de que, em cada um, o sujeito adquire novos conhecimentos ou táticas de sobrevivência, de concepção e interpretação do fato. A concepção deste procedimento é essencial para que os professores possam ao mesmo tempo compreender com quem estão trabalhando.
A obra de Jean Piaget não apresenta aos educadores uma didática exclusiva sobre como desenvolver a inteligência do aluno ou da criança. Piaget nos demonstra que cada etapa de desenvolvimento apresenta características e possibilidades de desenvolvimento do amadurecimento ou de conquistas. O conhecimento destas possibilidades faz com que os professores possam proporcionar estímulos apropriados a um maior desenvolvimento do sujeito.
Aceitar o ponto de vista de Piaget, portanto, provocará turbulenta revolução no processo escolar (o professor transforma-se numa espécia de ‘técnico do time de futebol’, perdendo seu ar de ator no palco). (...) Quem quiser segui-lo tem de modificar, fundamentalmente, comportamentos consagrados, milenarmente (aliás, é assim que age a ciência e a pedagogia começa a tornar-se uma arte apoiada, estritamente, nas ciências biológicas, psicológicas e sociológicas). Onde houver um professor ‘ensinando’... aí não está havendo uma escola piagetiana! (LIMA, 1980, p. 131).

O slogan “o professor não ensina, ajuda o aluno a aprender”, do Método Psicogenético, instituído por Lauro de Oliveira Lima, apresenta seus embasamentos nestas teorias epistemológicas de Jean Piaget. Têm outras escolas, distribuídas pelo Brasil, que do mesmo modo buscam criar metodologias exclusivas embasadas nas teorias de Piaget. Estas ações passam tanto pelo campo da educação privada como pelo público. Alguns governos municipais, inclusive, já tentam adotá-las como regra político-legal.
Entretanto, ainda se ignora as teorias de Piaget no Brasil. Pode-se assegurar que ainda é restrito o número daqueles que procuram conhecer melhor a Epistemologia Genética e tentam aplicá-la na sua vida profissional, na sua prática pedagógica. (CHIABAI, 1990).
O conhecimento do homem sobre o mundo está ligado inteiramente à sua adequação à realidade, ou seja, só o conhecimento faz com que a indivíduo se encaixe mundo. Porém, esses conhecimentos alcançados pela adequação nada mais são que o desenvolvimento do próprio indivíduo.

CURIOSIDADES SOBRE PIAGET
O pai de Piaget, Arthur Piaget, era professor de literatura.
Piaget com apenas 10 anos publicou, em Neuchâtel, um artigo sobre um pardal branco.
Aos 22 anos, Piaget já era doutor em Biologia.
Piaget escreveu cerca de 70 livros e 300 artigos sobre Psicologia, Pedagogia e Filosofia.
Piaget casou-se com uma de suas assistentes, Valentine Châtenay.
Observando seus filhos, desvendou muitos dos enigmas da inteligência infantil.
Vygotsky prefaciou a tradução russa de A Linguagem e o Pensamento da Criança, de Piaget, de 1923.
Vygotsky e Piaget não se conheceram pessoalmente.
BIOGRAFIA DE JEAN PIAGET
1896 -  Em 9 de agosto, na cidade suíça de Neuchâtel, nasce Piaget.
1907 - Com 10 anos publica na revista da Sociedade dos Amigos da Natureza de Neuchâtel um artigo com estudos sobre um pardal branco.
1915 - Forma-se em Biologia pela Universidade de Neuchâtel.
1918 - Torna-se doutor. Sua tese foi sobre moluscos.
Muda-se para a Zurique para estudar Psicologia (principalmente psicanálise).
1919 - Muda-se para a França. Ingressa na Universidade de Paris.
É convidado a trabalhar com testes de inteligência infantil.
1921 - A convite do psicólogo da educação Edouard Claparède (Escola Nova) passa a fazer suas pesquisas no Instituto Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, destinado à formação de professores.
1923 - Lança seu primeiro livro: A Linguagem e o Pensamento da Criança.
1924 - Casa-se com Valentine Châtenay, uma de suas assistentes, com quem teve três filhos: Jacqueline (1925), Lucienne (1927) e Laureni (1931).
1925 - Começa a lecionar Psicologia, História da ciência e Sociologia em Neuchâtel.
1929 - Em Genebra passa a ensinar História do Pensamento Científico.
Assume o Gabinete Internacional de Educação (dedicado a estudos pedagógicos).
ANOS 30 - Escreve vários trabalhos sobre as primeiras fases do desenvolvimento, muitos deles inspirados na observação de seus três filhos.
1941 - Com as pesquisadoras Bärbel Inhelder e Alina Szeminska, publica trabalhos sobre a formação dos conceitos matemáticos e físicos.
1946 - Participa da elaboração da Constituição da Unesco, órgão das Nações unidas para a Educação, Ciência e Cultura.
Torna-se membro do conselho executivo e é várias vezes subdiretor geral, responsável pelo Departamento de Educação.
1950 - Publica a primeira síntese de sua teoria do conhecimento: Introdução à Epistemologia Genética.
1952 - É convidado a lecionar na Universidade de Sobonne, em Paris, sucedendo ao filósofo Merleau-Ponty.
1955 - Em genebra, funda o Centro Internacional de Epistemologia Genética, destinado a realizar pesquisas interdisciplinares sobre a formação da inteligência.
1967 - Escreve a principal obra de sua maturidade: Biologia e Conhecimento.
1980 - 16 de setembro, morre Piaget em Genebra.
Observação: Biografia retirada da reportagem "Jean Piaget", escrita pela jornalista Josiane Lopes, da revista Nova Escola, ano XI, nº 95, de agosto de 1996.

REFERÊNCIAS

CHIABAI, Isa Maria. A influência do meio rural no processo de cognição de crianças da pré-escola: uma interpretação fundamentada na teoria do conhecimento de Jean Piaget. São Paulo, 1990. Tese (Doutorado), Instituto de Psicologia, USP. 165 p.

DOLLE, Jean-marie. Para Compreender Jean Piaget. São Paulo: AGIR, 1974

LIMA, Lauro de Oliveira. Piaget para principiantes. 2. ed. São Paulo: Summus, 1980. 284 p.

PIAGET, Jean. O nascimento da inteligência na criança. 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. 389 p.

SITES CONSULTADOS:


[1] Formada em Ciências, com habilitação em Matemática, para Ensino Fundamental (séries finais) e Ensino Médio. Especialista em Formação: Vocacional da Pessoa Portadora de Deficiência Mental; Magistério Superior; Psicopedagogia Clínica e Institucional; Arte, Educação e Terapia. Pedagoga. Graduanda em Serviço Social.