sexta-feira, 7 de setembro de 2012

MATERIAIS PEDAGÓGICOS ADAPTADOS PARA PESSOAS COM DEFICIÊNCIA VISUAL



MATERIAIS PEDAGÓGICOS ADAPTADOS PARA PESSOAS COM DEFICIÊNCIA VISUAL

[1]VERA LÚCIA PEREIRA DE SOUZA

A deficiência visual envolve desde pequenas alterações na intensidade visual até a falta de percepção de luz, mas as alterações que têm conseqüências mais sérias para a vida das pessoas com necessidades especiais e para as suas famílias são a baixa visão e a cegueira.
A pessoa com baixa visão ou visão subnormal apresenta uma diminuição na sua competência visual que intervém ou restringe seu desempenho, mesmo após a correção de falhas de refração comuns. A baixa visão pode acontecer por traumatismos, doenças ou defeitos no órgão ou no sistema visual. Um dos seus traços principais é a variedade de problemas visuais que ela pode gerar. As pessoas com baixa visão podem ter baixa intensidade visual, dificuldade para enxergar de perto e/ou de longe, campo visual restringido e problemas na visão de contraste, entre outros. (CARVALHO et al., 1992; VEITZMAN, 2000).
A cegueira acontece quando a visão altera de zero (falta de percepção de luminosidade) a um décimo na escala optométrica de Snellen, ou quando o campo visual é restringido a um ângulo menor que 20 graus. (VEITZMAN, 2000).
Para além dos termos técnicos e das medidas de acuidade visual é importante perceber que entre as pessoas com baixa visão e cegueira podemos deparar circunstâncias muito díspares. Algumas dessas pessoas terão autonomia na locomoção e outras necessitarão desenvolver táticas para atingi-la; algumas poderão desempenhar com pouca dificuldade os trabalhos escolares sem qualquer ajuda e outras necessitarão de ajudas ópticas (lupas e telescópios) ou não ópticas (ampliações, iluminação especial e outras adequações do ambiente) para melhorar seu desempenho; algumas conseguirão empregar materiais visuais e outras escolherão os materiais tateáveis (sistema Braille de escrita) ou auditivos. À variedade natural existente na natureza humana soma-se, assim, a variabilidade das condições instituídas pelos díspares tipos de deficiência visual e suas conseqüências no desenvolvimento e no convívio com os outros. (CARVALHO et al., 1992; VEITZMAN, 2000).

PERCEPÇÃO TÁTIL
Caixa tátil para estimular a percepção das variações táteis.
A criança coloca a mão dentro da caixa retira uma peça e depois retorna para procurar o par ou identificar o objeto. Pode ser confeccionada a partir de caixa comum com peças de EVA revestidas com tecidos de diferentes texturas, folha de lixa, algodão, botão, linha, lã, plástico, areia, barbante, velcro, tinta plástica ou tinta relevo. Esta atividade pode ser realizada com todos os alunos videntes ou não.
Materiais necessários:
Caixa de papelão comum, (pode ser de sapato), tesoura, papel dobradura, um círculo de EVA, cola quente, materiais diversos para serem identificados pelo tato.

JOGOS DE BINGO
Um dos exemplos de adaptação envolve o jogo de bingo, que comporta o trabalho com díspares considerações, com material a ser pareado por identidade (ex: formas ou números semelhantes no cartão sorteado e nas cartelas) ou relação entre características (ex: parte-todo, espécie e gênero, figura e palavra ou ícone correspondente). Em um modelo de adaptação de um bingo de formas, essas são desenhadas em material tateável e coladas sobre cada cartela e igualmente em pequenos cartões, a serem sorteados. Diversos tipos de materiais podem ser usados para organizar figuras em relevo, como é descrito com detalhe por Reily (2004). Outro detalhe: é delimitado, na cartela, um espaço para colocar o marcador da figura já sorteada (como os feijões no bingo tradicional), diminuindo o risco de serem mexidos, no período da colocação de novos marcadores, referentes a novas figuras sorteadas. Isso é feito com o recorte de aberturas quadradas na cartela, em posição fixa em relação a cada forma, colando-se o conjunto todo sobre outra cartolina. Os “feijões”, ou peças para assinalar figuras sorteadas, são quadrados de EVA que se encaixam nos buracos. Isso permiti várias jogadas, bastante entusiasmadas, sem a perda da informação sobre as figuras já sorteadas para cada participante.

DOMINÓ
Outro jogo que permite o pareamento, de forma conceitualmente similar ao bingo, é o dominó. Contudo, algumas dificuldades são observadas com um dominó adaptado, confeccionado em madeira, com buracos no espaço das bolinhas tradicionais: é difícil para as crianças compreenderem o conjunto que forma e detectarem a configuração das extremidades (informação relevante para sua jogada), sem tirar as peças do lugar. Nesse aspecto, no caso da cartela do bingo, tem maior espaço para manuseio e aproximação da criança e para assistência particularizada, sem o risco de perda de informações do jogo coletivo, como acontece quando o desenho do dominó é parcialmente desfeito por movimentos bruscos de um participante. No entanto, dependendo das características do grupo de crianças, o jogo de dominó compõe uma opção interessante.

JOGOS DE TABULEIRO
Outra modalidade de material que admite adaptações é o jogo de tabuleiro. Um exemplo que pode ser utilizado é a “Cidade-parque”, com 20 casas a serem percorridas. Essas casas são constituídas por quadrados de EVA: as de número par, em vermelho, expondo a parte áspera do material, e as ímpares, em amarelo, expondo a parte lisa do material.
Cada casa é numerada de duas formas: com os números convencionais, registrados com tinta preta em tamanho grande, e com números em Braille, feitos com rebites de metal introduzidos no EVA. Os “carros” são pequenos retângulos, com cores e texturas variadas, e o dado, em molde convencional, as bolinhas proeminentes, reconhecíveis, conseqüentemente, tanto pela visão como pelo tato. Nesse jogo observa-se que grupos de crianças, com díspares graus de dificuldade visual, participam de jogos em condições iguais para a identificação das informações relevantes.

LIVROS ILUSTRADOS
Uma experiência interessante envolve a confecção de livros infantis. São selecionadas quatro histórias infantis, habitualmente usadas em salas educacionais, e confeccionados os livros adaptados, com o texto em tipo aumentado, em letra de forma, de modo a beneficiar a leitura por crianças com baixa visão, com o texto em Braille correspondendo ao texto em tinta. Para as ilustrações, são selecionadas imagens representativas das principais cenas das histórias, em geral transformadas de forma a não representar a cena toda, mas sim poucos personagens ou elementos expressivos.
Estes são caracterizados por figuras montadas com diferentes recursos: EVA, tecido, lã (ex: as ovelhas eram feitas em lã costurada), contas
(costuradas) para indicar olhos e outros detalhes, objetos miniatura.
Observa-se a exploração das figuras e o tateio do texto, pelas crianças, com díspares níveis de participação e semelhantes aos observados por crianças videntes, nos diferentes períodos de contato com o livro infantil.
No que se refere à representação de figuras e cenas, é importante recomendar que não se trata de “traduzir” uma representação visual em seu correspondente tátil. Gravuras é o resultado de séculos de história da arte, de soluções estéticas e representativas que abrangem perspectiva, gradação de tons e díspares modos de sugerir formas e volumes.
É possível e desafiador inventar uma representação tátil, a partir da mesma temática que sugeri uma representação visual (por exemplo, o texto de uma história infantil). Abre-se, assim, uma perspectiva pouco procurada até o presente, que transcende, em muito, a mera adequação de material gráfico.
Os exemplos citados mostram a viabilidade de criação de materiais que permitem a participação conjunta em atividades educativas e lúdicas de crianças com e sem deficiência visual, em circunstâncias que, habitualmente, são centralizadas em materiais que exigem a visão. É importante, contudo, não restringir a questão à elaboração de um acervo de materiais adaptados. É sempre importante estar atento à dinâmica de emprego dos mesmos, relacionada aos interesses e capacidades dos componentes dos grupos, sugerindo renovação e readaptação dos recursos. (SOLOVIJOVAS e BATISTA, 2003)

CONCLUSÃO
O sucesso escolar de alunos com deficiência visual é um dos desafios da inclusão. Ainda que, de acordo com os teóricos do desenvolvimento, a deficiência visual em si não institua um empecilho necessário para o desenvolvimento e para a obtenção de conhecimento, a trajetória escolar de muitas crianças com deficiência visual acaba sendo mal-sucedida devido a um conjunto de fatores que abrangem desde os serviços de detecção e a intervenção precoce, incluindo-se, aí, o amparo à criança e a orientação à família, até a instrumentalização dos educadores para usar, com cada faixa etária e com cada criança, os recursos que promovam o interesse e a participação integral nas atividades da escola. (CARVALHO, 1992)
O trabalho dirigido nessa direção deve associar conhecimentos sobre desenvolvimento, aprendizagem e precisões particulares desse grupo, deste modo como dados sobre o estilo pessoal de cada aluno e sobre a conduta do grupo em que está inserido. Os modelos de confecção e uso de materiais acessíveis em atividades concretas e projetos de ensino remetem ao conjunto de dados que constitui a base sobre a qual as estratégias pedagógicas serão estabelecidas, utilizando-se recursos característicos, materiais múltiplos e pequenas adaptações, segundo a necessidade.
O enfoco na dimensão social da aprendizagem, agrupado à retirada de obstáculos e às estratégias que beneficiem a utilização grupal de materiais e a colaboração, permitirá ao educador empregar recursos palpáveis / visuais /auditivos e organizar a sala de aula de maneira que ela seja acessível a todos os alunos. (BRUNER, 1997)
É importante recomendar aqui que nem sempre as estratégias de educação exigem recursos especiais, entretanto sempre demandam a presença de um educador vigilante, informado e dinâmico, competente de identificar, a cada período, as precisões dos seus alunos.

REFERÊNCIAS

BRUNER, J. Atos de significado. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

CARVALHO, K.M.M. et al. Visão subnormal – orientações ao professor do ensino regular. Campinas: Editora da UNICAMP, 1992.

REILY, L. Escola inclusiva: linguagem e mediação. Campinas: Papirus, 2004. (Série Educação Especial).

SOLOVIJOVAS, A. R.; BATISTA, C.G. A importância da adaptação de livros infantis e da contação de histórias para crianças com deficiência visual. I Congresso Brasileiro de Educação Especial, I Encontro da Associação Brasileira de Pesquisadores em Educação Especial e IX Ciclo de Estudos sobre Deficiência Mental, Anais..., Sessão 18 de Comunicações Orais, p. 72-73, 2003.

VEITZMAN, S. Visão subnormal. Rio de Janeiro: Cultura Médica, 2000. (Coleção de Manuais Básicos CBO).

VIGOTSKI, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1984.










[1] Pedagoga; Graduada em Ciências – Habilitação em Matemática 1º grau e Ensino Médio; Assistente Social; Especialista em: Profissionalização da Pessoa com Deficiência Intelectual;  Arte, Educação e Terapia; Magistério Superior e em Psicopedagogia Clinica e Institucional.