segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A educação das emoções e da vontade...

A educação das emoções e da vontade

Por Eduardo Chaves07/12/2011
Qual é a meta da Educação? A filosofia dos gregos clássicos e o pensamento de intelectuais contemporâneos na área de administração e economia, como Eliyahu Goldratt e James Heckman, ajudam-nos a buscar uma resposta a essa questão. Ao final, mostra-se que a resposta, além do desenvolvimento das competências cognitivas convencionais e das chamadas competências do século 21, precisa contemplar áreas às quais as escolas de hoje não dão muita atenção: a educação das emoções e da vontade.
 
A meta da Educação
Qual a meta da atividade que chamamos de Educação? Hoje a gente ouve várias sugestões: formar cidadãos, preparar trabalhadores do conhecimento para a economia digital… Prefiro, entretanto, uma visão diferente.

Para usar uma expressão bonita da Viviane Senna, a meta da educação é fazer com que as pessoas “deem certo”. Ou, para usar uma expressão que foi incluída pela Microsoft na sua missão, “fazer com que as pessoas realizem seu pleno potencial”. Ou ainda, como eu mesmo venho dizendo aqui neste blog, fazer com que as pessoas se desenvolvam, plena e integralmente, como seres humanos.

Essas três formulações são bonitas, nobres e, estou convicto, corretas. Mas não bastam, porque é preciso que se esclareça o que queremos dizer quando afirmamos que uma pessoa “deu certo”, ou “realizou seu pleno pontencial”, ou “se desenvolveu plena e integralmente como ser humano”.

Quando Goldratt afirma que a meta de uma empresa é fazer dinheiro ou dar lucro, todo mundo entende claramente o que ele quer dizer, mesmo que não concorde ou não saiba como alcançar essa meta. Quando, porém, apontamos essas outras possibilidades, não há uma clareza comparável de entendimento. Parece que fica faltando explicar alguma coisa. E aqui chegamos à filosofia. Mais cedo ou mais tarde a gente chega a ela.

A contribuição da filosofia
Pegando uma sugestão dos principais filósofos gregos clássicos (Sócrates, Platão e Aristóteles), gostaria de definir que uma pessoa dá certo, ou realiza o seu potencial, ou se desenvolve como ser humano, quando se torna “virtuosa” (no sentido técnico que vou tentar esclarecer).

Muitos vão me acusar de estar trocando seis por meia dúzia – afinal de contas, o que queremos dizer quando chamamos uma pessoa de virtuosa? Ocorre que os gregos tinham uma resposta para essa questão. Para chegar à resposta dos gregos, precisamos, como Jack, o Estripador, ir por partes…

Primeiro, os gregos (que eram muito lógicos; na verdade, eles inventaram a lógica…) sabiam que, para responder à nossa pergunta – “O que é uma pessoa virtuosa?” – tinham de esclarecer antes o que tomavam por “pessoa” e por “virtude”.
Uma pessoa, concluíram, é um ser capaz de pensar, sentir (emocionar-se, por exemplo) e agir. Para agir, ele tem de ser capaz de escolher e decidir. Tais competências (ou “faculdades”) compreendem a mente (ou “alma”) da pessoa.

Virtude, por seu lado, é aquilo que é bom (ou certo) na ação ou na conduta. A propósito, os gregos davam enorme importância a três coisas que consideravam “transcendentais”: o verdadeiro, o belo e o bom. O verdadeiro deve reger os nossos pensamentos; o belo, os nossos sentimentos; e o bom, a nossa ação ou conduta – o leitor pode notar que os gregos gostavam de deixar tudo muito bem “amarradinho”.

Uma pessoa virtuosa, portanto, é aquela que, em suas ações, faz o que é bom ou certo, ou que guia sua conduta por o que é bom ou certo. Mas como é que descobrimos o que é bom ou certo em nossas ações e em nossa conduta?

Resposta dos gregos (que considero difícil de melhorar): pensando, isto é, refletindo, discutindo, criticando e sendo criticado. Nesse processo, é possível descobrir algum critério que nos permita distinguir a ação boa, ou conduta correta, da ação má, ou conduta incorreta. Digamos que um critério como este seja próximo do que é procurado: uma ação é boa ou correta se é generalizável, isto é, se eu, ao contemplá-la, posso desejar que qualquer outra pessoa, mesmo um inimigo meu, em circunstâncias semelhantes, faça a mesma coisa. (Essa é uma versão meio kantiana da lei áurea cristã: fazer aos outros aquilo que queremos que nos façam). [Obrigado ao Francisco Nunes por uma correção neste parágrafo.]

Neste ponto, os gregos constataram um fato importante sobre a natureza humana. Mesmo que eu saiba que determinada ação é certa, e, portanto, deve (ou pode) ser realizada, ou que é errada, e, portanto, deve (sem o “pode”, aqui) ser evitada, esse conhecimento é suficiente para que eu faça o que é certo e abandone o que é errado?

Resposta: não. Saber o que é certo e o que é errado é condição necessária, mas não suficiente, para agir de tal maneira. Há uma lacuna, ou gap, entre saber o que é certo e fazê-lo, entre saber o que é errado e evitá-lo. Os gregos também estabeleceram que esse gap pode ser de dois tipos:
a) Em alguns casos, a pessoa sabe o que é certo e o que é errado, mas não quer fazer o certo e evitar o errado;
b) Em outros casos, a pessoa sabe o que é certo e o que é errado, quer fazer o certo e evitar o errado, porém não consegue.

Em ambos os casos, o sujeito não tem nenhum problema no plano cognitivo: ele sabe o que é um e outro. No primeiro, contudo, sua vontade não está alinhada com a sua cognição. Consequentemente, não será virtuoso: não fará o que é bom ou certo.

Se o objetivo da Educação é fazer com que as pessoas se tornem virtuosas, precisará formular um caminho para fazê-las mudarem o que querem. Ou terá fracassado. Isto pode ser conseguido constrangendo-as ou mesmo obrigando-as (caso tenhamos como fazer isso) a fazer o certo e a não fazer o errado. Mas assim elas não estariam escolhendo ser virtuosas: estariam apenas agindo certo e deixando de agir errado por coação – física ou mental, que pode funcionar temporariamente.

Por consequência, o desafio que se impõe à Educação é o de saber agir sobre a vontade das pessoas para alterá-la; ou melhor, para conseguir que elas mesmas, de forma livre e espontânea – consentida – mudem a sua vontade.

No segundo caso, o jogo é outro. Se a pessoa, mesmo querendo, não consegue fazer o que ela sabe ser certo, tampouco abandonar o que sabe ser errado, também não se tornará virtuosa. Este é um fosso difícil de ser transposto. Já disse o apóstolo Paulo, que inclusive conhecia o pensamento grego: “O bem que eu quero, esse eu não faço, e o mal que eu não quero, esse eu faço…” (ver Romanos 7:19).
O problema está, enfim, onde a vontade é demasiadamente fraca para produzir a ação.

As emoções e os sentimentos
David Hume (1711-1776), filósofo que estudei em minha tese de doutoramento nos idos de 1970-1972, escreveu sua primeira obra (sua obra-prima) antes de completar 30 anos: A Treatise of Human Nature (Tratado da Natureza Humana). O livro está dividido em três partes, que correspondem ao Thought, Emotion and Will (Pensamento, Emoção e Vontade) da filosofia clássica: Of the Understanding, Of the Passions, Of Morals (Do Entendimento, Das Paixões, Da Moral).
Na obra, ele diz algo que se tornou um ponto de vista importante na filosofia posterior:
Reason is, and ought only to be the slave of the passions, and can never pretend to any other office than to serve and obey them. Em português:A razão é, e apenas deve ser, a escrava das paixões, e não pode pretender nenhuma outra função além de servir e obedecer a elas”.
Para Hume, a razão é incapaz de mover a vontade, ou, havendo a vontade, de produzir a ação – a menos que haja a intermediação do que ele chamava de paixões: as emoções e os sentimentos. Em outras palavras, a razão me diz que é certo ou que é errado fazer determinada coisa, mas não se mostra capaz de me fazer querer agir de uma forma ou de outra. Para mover a vontade ou fazer com que ela produza a ação, as emoções e os sentimentos são necessários.

Se Hume está basicamente correto, a Educação precisa atribuir muito mais importância do que atribui hoje à Educação das emoções, dos sentimentos, das sensibilidades, porque este aspecto será indispensável para que uma pessoa possa “dar certo”, “realizar seu potencial” ou “se desenvolver como ser humano”.

Conclusão
No último 25/10 o Instituto Ayrton Senna realizou o Seminário Internacional “Educação para o Século 21”. A principal estrela do evento foi James Heckman, professor de economia da Universidade de Chicago e ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2000. 

Ladeado por três ex-alunos, ele discorreu sobre a importância – para o sucesso na escola e na vida – das chamadas “competências não cognitivas”. Para o grupo, elas são tão importantes quanto as competências cognitivas para explicar o sucesso na escola e na vida, assim como são importantes o desenvolvimento das competências cognitivas.

Vimos aqui que, se os filósofos gregos e David Hume estavam na direção certa, os desafios que a Educação enfrenta são maiores do que a dicotomia “cognitivo vs. não cognitivo” deixa entrever. A dimensão não cognitiva abrange competências como liderança, colaboração, persistência, resiliência etc., envolvendo ainda a educação das emoções, dos sentimentos, das sensibilidades e das vontades.

Esse complexo de “educações” está estreitamente relacionado com a formação de hábitos, desde que a criança é muito pequena… É nessa fase que se desenvolvem, muito antes que a criança possa entendê-las racionalmente, atitudes e posturas básicas perante os outros, perante a vida, perante a natureza, perante as coisas, que farão com que ela oportunamente venha a ter respeito pelo verdadeiro, pelo bom e pelo belo. 

Sem elas, dificilmente quererá fazer o que é certo: por que não posso bater nele? Por que não posso levar comigo o que é dele? Por que não devo falar quando os outros estão falando?

Suspeito que relações interpessoais sadias e afetivas, assim como os bons exemplos que elas produzem, são muito mais eficazes do que hoje tomamos por trabalho escolar.


Lumiy´s Blog Visão e Percepção
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