sábado, 14 de maio de 2011

PAULO FREIRE E A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS

PAULO FREIRE E A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS

VERA LÚCIA PEREIRA DE SOUZA

              Analisamos no transcorrer do caminho histórico das políticas educacionais no Brasil as várias expressões da Educação de Jovens e Adultos no cenário nacional. Demonstrações estabelecidas pelas intencionalidades, veemência e conflitos entre as classes sociais por meio dos múltiplos segmentos, grupos e representações que as compõem no ambiente do Estado ou da Sociedade Civil, baseadas em idéias, conceitos, discursos e atuações que expõem projetos de sociedade e de Brasil díspares.
              Interpretando os argumentos do Brasil deste século, identificamos a presença acentuada dos conceitos de integração nacional e heterogeneidade cultural apresentando-se de forma caracterizada nos diversos períodos de nossa história. Nas políticas educativas brasileiras não é diferente: esses julgamentos se apresentam por meio da literatura, dos discursos oficiais, das Conferências e Congressos, das determinações políticas seguidas, nos procedimentos pedagógicos empregados, no sentido de examinar ou referendar as disposições governamentais democráticas ou autocráticas. (IAMAMOTO & CARVALHO, 1982).
              No entanto, por serem organicamente acoplados à realidade, expressando-a por meio da finalidade, elaboração e atuação dos homens e mulheres, compreende-los denota entender as contradições e o movimento que se apresenta na dinâmica histórica brasileira formada de grande heterogeneidade étnica e cultural muitas vezes recusada em função de políticas taticamente integradoras.
              Em quase todo este século, as experiências de ensino de jovens e adultos no Brasil ajuizaram esta direção integradora ao projeto de desenvolvimento econômico e social estabelecido e efetivado especialmente a partir da década de 30, afiançando a emergência do capitalismo no Brasil. Em meio a gestões autocráticas e populistas com “suspiros” democráticos, as finalidades e atuações integradoras da população a este projeto nacional (de mando internacional) empregaram como instrumento essencial a Educação de Jovens e Adultos procurando recusar a figura “atrasada” do analfabeto (presente no meio rural) e assegurando a idéia “moderna” do trabalhador ativo, produtivo e obediente (presente no meio urbano industrial). (GADOTTI, 1995).
              Entretanto, do mesmo modo foi neste argumento que se gestaram formas caracterizadas de se ler a realidade averiguando e assegurando a heterogeneidade cultural (composição histórica de nossas raízes) presente no território brasileiro, modificando a perspectiva de se fazer EJA.
              Por influência de Paulo Freire, as políticas de EJA puderam desvendar as especificidades culturais, econômicas e sociais locais e regionais, divulgando assim, os problemas sociais existentes, bem como os potenciais existentes para a transformação a partir da atuação dos sujeitos integrados, enraizados em sua cultura. A disparidade cultural passa a ser identificada e distinguida como elemento essencial para se pensar e fazer educação, e do mesmo modo Educação de Jovens e Adultos, recusando as finalidades militaristas e populistas integradoras: homogeneizantes e padronizadoras. (FREIRE, 1996).
              Identificamos este debate entendemos a potencialidade que representa a Educação de Jovens e Adultos como instrumento de transformação a ser adequado pelas mais díspares populações e segmentos (econômica, social e culturalmente excluídos) que compõem a nossa nação, tornando-se sujeitos no domínio e na gestão de políticas educativas. Apropriarmo-nos deste instrumento, apreendendo sua expressão no passado, potencializa-nos ajuizar e estabelecer políticas e atuações de educação de jovens e adultos que identifiquem – na atual, presente e premente realidade dos diversos sujeitos chamados brasileiros – referenciais de transformação, participação, oposição e identidade por um projeto de Brasil que possa ser verdadeiramente de todos.


REFERÊNCIAS

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 22. ed. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1996.

GADOTTI, Moacir. Pedagogia da práxis. São Paulo: Cortez : Instituto Paulo Freire, 1995.

IAMAMOTO, Marilda; CARVALHO, Raul. Relações Sociais e Serviço Social no Brasil. São Paulo: Cortez, 1982.

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