domingo, 30 de março de 2014

FORMAS DE RESISTÊNCIA: MOCAMBOS OU QUILOMBOLAS

FORMAS DE RESISTÊNCIA: MOCAMBOS OU QUILOMBOLAS
SOUZA, Vera Lúcia Pereira de.



              Ao longo dos séculos XVI ao XIX nos vários países do continente americanos onde existia o escravismo existiram lutas das pessoas africanas escravizadas à procura de sua liberdade. As formas de luta variavam com revoltas nas zonas urbanas e rurais, fugas individuais, assassinatos de senhores e capatazes e, mesmo, o suicídio. (LOPEZ, 2008).
              A fuga era uma das saídas extremas que as pessoas escravizadas encontravam para escapar do cativeiro. Escapavam sozinhos ou em grupos de acordo com algum plano ou aproveitando-se de alguma oportunidade inesperada. Das formas de resistência coletiva destaca-se a formação das comunidades que reuniam os escravizados fugitivos. No nosso País Brasil foram, inicialmente denominadas de mocambos[1] e após, como são mais conhecidos, quilombos. (LOPEZ, 2008).
              Em nosso País Brasil as primeiras informações a respeito dos quilombos são do ano de 1575 no Estado da Bahia. Depois disso as notícias não cessam de aparecer informando a formação do famoso quilombo de Palmares com milhares de habitantes, localizados na Serra da Barriga, no atual estado da Alagoas e de tantos outros nas regiões de mineração nos Estados de Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais[2]. Alguns quilombos se estabeleciam estrategicamente próximo de fronteira para que pudessem fugir para outros países em caso de perseguição. Era o caso de alguns quilombos no Estado do Rio Grande do Sul. Uma das características destas comunidades era a mobilidade. A própria palavra mocambo relaciona-se como o tipo de moradia que poderia ser facilmente desmontada para uma rápida mudança, ou seja, podiam descolar-se com a “casa nas costas”. Isso faz lembrar a herança africana de alguns povos como os pigmeus[3].
              Nem sempre os fugitivos ficavam em lugares isolados. Muitos procuravam a proximidade com engenhos; a áreas de produção de alimentos; áreas de mineração. Ocupavam terras devolutas ou de fronteiras econômicas e regiões de sertões[4].
              Existiram, também, os quilombos fundados e protegidos por abolicionistas que procuravam arrumar trabalho para seus moradores como é o caso do quilombo do Leblon. Como seus moradores trabalhavam em uma plantação de camélias esta flor tornou-se símbolo da campanha abolicionista[5].
              Assim, nas cidades onde existia grande concentração de pessoas escravas africanas acontecia que alguns deles, ao se rebelar, fugir, de seus donos, senhores, escolhiam por não abandonar a cidade, uma vez que não conheciam o trabalho agrícola. (LOPEZ, 2008).
              Deste modo, viviam na cidade como se fossem libertados, contando com o acobertamento de ex-escravos alforriados e também, de alguns senhores que lhes davam trabalho. Desta forma iam vivendo de forma precária prestando serviços braçais ou pequenos comércios[6].
              Também existiam os quilombos, cuja atividade principal era o assalto às fazendas e povoações de sua proximidade. Por sua característica este tipo de quilombo tinha uma existência mais curta. Alguns deles, também, abrigaram pessoas indígenas e pessoas brancas procuradas pela justiça. (LOPEZ, 2008).
              Assim, a existência de Quilombo dos Palmares nos mostra a capacidade de adaptação das pessoas africanas que precisaram conhecer e dominar a geografia, o relevo, as plantas e animais de uma área completamente diferente de sua região de origem.
              A resistência, a procura incessante de liberdade, a capacidade de criar um novo mundo fora da África são bem demonstradas pela existência dos quilombos e lindamente cantadas nos versos de Paulinho da Viola:




MÚSICA: UMA HISTÓRIA DIFERENTE[7]
A história desse negro
É um pouco diferente
Não tenho palavras
Pra dizer o que ele sente
Tudo aquilo que você ouviu
A respeito do que ele fez
Serve para ocultar a verdade
É melhor escutar outra vez
{bis}
Foi um bravo no passado
Quando resistiu com valentia
Para se livrar do sofrimento
Que o cativeiro infligia
Apesar de toda a opressão
Soube conservar os seus valores
Dando em todos os setores
Da nossa cultura
Sua contribuição
Guarda contigo
O que não é mais segredo
Que esse negro tem histórias
Meu irmão
Pra fazer um novo enredo
{3 x)

SUGESTÃO DE LIVRO




              O Livro “Liberdade por um Fio” – trata da História dos Quilombos no Brasil – João José Reis e Flávio dos Santos Gomes (Organizadores) Cia das Letras – 1996. O livro é uma reunião de artigos de vários autores sobre quilombos situados em várias localidades do nosso País Brasil, desde os menos conhecidos, até o de Palmares que é revisitado sob várias perspectivas. Resenha disponível em: <http://resenhasbrasil.blogspot.com.br/2010/05/liberdade-por-um-fio-historia-dos.html>.


SUGESTÃO DE SITE



  
              Criada em 1988, a Fundação Cultural Palmares é uma instituição pública vinculada ao Ministério da Cultura que tem a finalidade de promover e preservar a cultura afro-brasileira. Preocupada com a igualdade racial e com a valorização das manifestações de matriz africana, a Palmares formula e implanta políticas públicas que potencializam a participação da população negra brasileira nos processos de desenvolvimento do País.
              Fruto do movimento negro brasileiro, a Fundação Cultural Palmares foi o primeiro órgão federal criado para promover a preservação, a proteção e a disseminação da cultura negra.
              Em seu planejamento estratégico, a instituição reconhece como valores fundamentais:
- COMPROMETIMENTO com o combate ao racismo, a promoção da igualdade, a valorização, difusão e preservação da cultura negra;
- CIDADANIA no exercício dos direitos e garantias individuais e coletivas da população negra em suas manifestações culturais;

- DIVERSIDADE, no reconhecimento e respeito às identidades culturais do povo brasileiro.
              Conheça o site da Fundação Palmares – ligada ao Ministério da Cultura. Disponível em: <http://www.palmares.gov.br/>.


SUGESTÃO DE FILME



             
              Quilombo. Direção Cacá Diegues. Brasil, 1984.
              Sinopse: num engenho de Pernambuco, por volta de 1650, um grupo de escravos se rebela e ruma ao Quilombo dos Palmares, onde existe uma nação de ex-escravos fugidos que resiste ao cerco colonial, entre eles Ganga Zumba, um príncipe africano. Tempos depois, seu herdeiro e afilhado, Zumbi, contesta as ideias conciliatória de Ganga Zumba e enfrenta o maior exercito jamais visto na historia colonial brasileira.


REFERÊNCIA

LOPEZ, Adriana. História do Brasil: uma interpretação / Adriana Lopez, Carlos Guilherme Mota. – São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2008. Disponível em:




[1] Mocambos: Assentamentos rurais, manifestações culturais vinculadas ao passado, ascendência escrava. Esses são os parâmetros, segundo a Associação Brasileira de Antropologia, para se definir um quilombo, mocambo ou terra de preto. Disponível em: <http://www.studium.iar.unicamp.br/africanidades/resenhas/falavigna4.html>.
[4] Idem.
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